De comboio pela costa do Vietname no Expresso da Reunificação
Começando pelo princípio: a decisão sobre onde ir e a compra do bilhete.
Onde ir? A viagem mais emblemática – e mais longa – é entre Hanói e a cidade de Ho Chi Minh (Saigão), descendo (ou subindo) a quase totalidade da costa do Vietname. É uma viagem longa, de quase 3 dias se feita de seguida, mas que pode ser experimentada em compartimentos modernos, com camas que se abrem à noite, ar condicionado e refeições servidas no comboio. É conhecido, este comboio entre a antiga capital e a atual, como o Expresso da Reunificação. É possível também chegar a Hanói vindo de comboio por exemplo de Pequim (o que fiz numa viagem anterior, mudando de comboio na fronteira, com controlo de passaportes e vistos) ou de Hong Kong.
O site de referência com todas as informações possíveis e imaginárias sobre viagens de comboio no mundo continua a ser o www.seat61.com, que tem a sua secção dedicada ao Vietname aqui: https://www.seat61.com/Vietnam.htm#hanoi-hue-danang-saigon-by-train
A viagem pode ser repartida, escolhendo-se paragens pelo meio, como Hué, Da Nang (esta a estação mais próxima de Hoi An) ou Nha Trang, o que provavelmente é mais interessante. Isso significa a compra de bilhetes independentes para cada troço da viagem, feita em dias e comboios diferentes, podendo aproveitar-se para conhecer outras cidades e regiões. Foi o que fiz, primeiro de Hué a Da Nang (duas horas e meia) e, depois, de Da Nang para Saigão (cerca de 17 horas, passando uma noite no comboio).
Como comprar o bilhete? Os bilhetes podem hoje ser comprados online com grande facilidade e segurança, mas também o podem ser nas estações de comboio. Os melhores sites para os comprar são o Baolau e o 12goAsia, pagando com cartão de crédito e recebendo os bilhetes por email, que nem precisam de ser impressos (basta levá-los no telefone). Há períodos do ano, coincidentes com as férias ou com as festas, em que os bilhetes esgotam rapidamente. Caso se queira viajar num desses momentos, a compra com bastante antecedência é fundamental.
O Expresso da Reunificação tem diferentes comboios por dia (é escolher o horário que faça mais sentido) e três tipos principais de carruagens: primeira classe com camas, em compartimentos de 2 ou 4 pessoas e ar condicionado; segunda classe com camas e ar condicionado, em compartimentos de 6 pessoas; e lugares sentados com ar condicionado. Existem ainda algumas carruagens com bancos de madeira e sem ar condicionado, nalguns dos comboios, mas os masoquistas militantes devem ter seguramente sites próprios onde ver isso.
Os lugares são numerados e reservados com a compra do bilhete, mesmo que isso implique depois alguma negociação, que será muito suave e rápida, com o vietnamita que vai estar no “nosso” lugar quando entrarmos no comboio.
A “primeira classe” é provavelmente a melhor opção, podendo escolher-se uma versão romântica (compartimento de 2 pessoas) ou uma mais coletiva ou esperançada (4 pessoas). Tem uma luz de leitura e uma porta USB para carregar o telefone em cada cama. Os beliches de cima são os piores: o reverso de uma maior privacidade é o ar condicionado, gelado e impossível de regular, sempre a bombardear-nos (um casaco quente é necessário, que o lençol fornecido no comboio não chega para nos aquecer).Há sempre água, comida, café e cerveja à venda no comboio, mas pode-se levar connosco o que se quiser (e caso não se aprecie arroz servido à mão no prato, talvez possa optar por uma embalagem de noodles rápidos).
O preço da viagem (ida) em primeira classe com cama (num compartimento de 4 pessoas) entre Hanói e Saigão ronda o milhão e 800 mil dong (aproximadamente 77 euros). Em segunda classe com cama, custa menos cerca de 10 euros. Inclui 2 noites passadas no comboio… Percursos mais curtos nesta linha têm preços ajustados à distância e à duração da viagem.
O comboio é o ambiente perfeito para saborear uma viagem, ler um bom livro ou ver um bom filme, observar a paisagem pela janela a mudar num tempo lento e ter uma boa conversa com um desconhecido. E chegar-se ao centro da cidade de destino, sem preocupações com aeroportos longínquos, taxistas aldrabões, filas de segurança intermináveis e voos atrasados ou cancelados, mantendo a nossa bagagem connosco, sempre disponível ao longo da viagem. Mas, claro, passar 40 horas num comboio pode não ser para todos… Os comboios no Vietname são confortáveis e (minimamente) limpos, mesmo se estão sempre cheios.
Entre Hué e Da Nang passa pela janela do comboio um dos percursos mais cénicos desta linha, que vale a pena fazer durante o dia (por exemplo tomando em Hué o comboio SE 1, das 9h08 (2022), provindo de Hanói e destinado a Saigão, que chega a Da Nang logo às 11h30).
O comboio segue lentamente junto ao mar e entre as montanhas ainda cobertas de verde. Azul e verde em diferentes tons e o marfim da areia das praias são as cores desta parte da viagem. Vai querer-se, portanto, um lugar à janela.
A sul de Da Nang, continua o verde, mas a praia e o mar estão menos presentes – até porque a partir das cinco da tarde anoitece. Sucedem-se agora os campos de arroz em verde e em castanho, bananeiras, passagens de nível onde dezenas de motas se amontoam, impacientemente aguardando que o comboio se despache. O fogo de pequenas piras de arroz seco reflete-se na água dos campos. Vacas e búfalos com pássaros negros no dorso pastam. E, no comboio, espalha-se o cheiro a milho acabado de cozer: de um carrinho, que passa por todas as carruagens, vendem-se maçarocas de milho fumegantes. No carrinho seguinte, arroz e massa, frango e vegetais, sopas.
Café e cerveja. Não se passa fome no comboio.
Querendo ir à carruagem bar, vão encontrar-se os revisores do comboio descontraidamente a ver os seus telefones e a um fumar um cigarro, deitados nos bancos. Ouve-se o som de galinhas e de um cão, invisíveis, mas bem audíveis. As caixas de cartão de cerveja, ovos, bananas, embalagens de noodles e tudo o mais empilham- se por todo o lado.
A noite passa depressa e, após um último café na carruagem, chega-se em torno das 6h45 da manhã a Saigão. A cidade já acordou. É fácil apanhar um táxi para o hotel (táxi da Vinasun) – mas é bom ter notas pequenas para pagar, já que a essa hora não há trocos.
A esta hora da manhã, o calor ainda não domina as ruas e é ainda possível caminhar,
serpenteando as motas e as poças de água no chão.

