Da Nang e Hoi An, as gémeas opostas do Vietname
Fiz uma paragem a meio do percurso de comboio descendo a costa do Vietname para conhecer Da Nang e, especialmente, Hoi An.
Ambas na costa, a zona de praia de 30 km que as liga é muitas vezes referida como China Beach, a praia das séries (e da realidade) da guerra do Vietname, na perspetiva norte-americana, onde os soldados iam descomprimir nuns dias de licença (na banda sonora da série de TV dos anos 80 China Beach, o tema de abertura Reflections, de Diana Ross e das Supremes, ficava no ouvido: https://www.youtube.com/watch?v=nV72YrB1454.
A Da Nang hoje pouco terá a ver com a cidade dessa época. É uma cidade de mais de 1 milhão de habitantes, com arranha-céus junto ao mar, hotéis de cadeias internacionais na praia e um trânsito que nunca para. Foi uma paragem curta: optei por dormir em Da Nang, mas usar os dias para ir até Hoi An (que fica a uma 1 hora de carro de distância, pedido no hotel, 35 euros ida e volta, com várias horas de permeio entre trajetos).
Fiquei no hotel Binh Duong, perto da marginal e na zona central (rua Tran Phu, 32, um excelente quarto, com AC e WC, por 16 euros a noite). O mais memorável que guardo da cidade é provavelmente um polvo grelhado com manga, pepino, hortelã, amendoim e, claro, muito fish sauce e muito picante, uma variante da nossa salada de polvo com inspiração oriental – prato designado por Bach Tuôc Sôt Thái, para os puristas –, no Loco, onde se pode ficar a beber cerveja (cerveja Larue, a marca local) até às 5 da manhã, não muito longe daquele hotel (rua Lê Duân, 1).
Hoi An é quase o oposto de Da Nang.
Vale a pena conhecer e demorar-se um pouco na parte antiga da cidade (em inglês, isso mesmo, Hoi An Old City), hoje património da Humanidade declarado pela UNESCO.
Neste antigo porto, cruzamento de gentes e de mercadorias ao longo de séculos, a zona velha é uma malha de ruas planas, onde apenas são permitidas circular bicicletas, para além das pessoas, que são interrompidas por diversos canais de água. Vão ler descrições que falam de uma “Veneza do Vietname”: é um exagero, totalmente desajustado. Mas também agora qualquer entupimento de uma caleira e uma chuvada permite falar-se de uma qualquer Veneza, desde Aveiro a Hoi An…
As construções, datadas do século XIX e início do século XX e razoavelmente mantidas, têm invariavelmente no rés-do-chão uma loja ou um café, criados com gosto e muito disponíveis para receber os dong dos turistas. As casas perfilam-se com os seus adornos em madeira e coberturas em telha antiga. Há, no entanto, silêncio, aqui e ali interrompido pela bicicleta que passa ou pela selfie mais ruidosa da família vietnamita em passeio. E basta sair das ruas principais e experimentar as travessas para encontrar uma realidade que parece intocada há dois séculos.
Passear pela parte velha da cidade é livre, mas pode-se comprar um bilhete (há bilheteiras em diferentes entradas do bairro) que permite a entrada num conjunto de templos e de casas especialmente conservadas, espalhadas pela zona e nem sempre fáceis de descobrir.
Convém ficar algum tempo na parte antiga, para além naturalmente de nos podermos alojar em Hoi An, que tem todo o seu desenvolvimento urbano das últimas décadas logo ao lado. Vai saber bem ficar sentado sem pressa numa das muitas esplanadas a aproveitar o vento que vem do mar. Dar uma volta de barco até ao mar e voltar. E ver as lanternas, feitas de papel ou de seda, presentes em quase todas as ruas e que se acendem quando o sol se põe, criando um ambiente único.
O prato anunciado como sendo o mais tradicional de Hoi An é o cau lau, uns noodles mais grossos do que o habitual, com diversos acompanhamentos, que é bom e que todos os restaurantes anunciam. Junto aos canais podem ver-se aliás muitos tabuleiros de noodles a secar ao sol.
Para quem venha do caos de Hanói ou de Saigão, Hoi An é totalmente distinta, uma cidade de um tamanho manejável e que guarda algo de trás, que merece ser mantido e conhecido. Sempre embalado pela brisa do mar do sul da China.



