Sihanoukville e Koh Rong, o sul do Camboja que significa “a” praia

Não há como dizer de outra maneira. Neste momento, a cidade de Sihanoukville é um estaleiro imenso, com algumas praias bonitas relativamente perto, mas tudo mais caro e pior que noutros locais do Camboja e sem verdadeiro interesse.

A viagem de Phonm Penh, numa van (partem, na capital, de junto do espaço do Night Market, perto do rio, onde se compram também os bilhetes), até Sihanoukville, com cerca de 8-10 passageiros, pode incluir miúdos a vomitar e galinhas vivas no interior, mas é razoavelmente confortável, mesmo se lenta, 5 horas (se não avariar no caminho), com muito trânsito e sempre obras na via. Inclui uma paragem num restaurante de beira da estrada, onde se pode comprar fruta e snacks locais ou assumir uma refeição mais substancial e corajosa. O transporte custa cerca de 10, 12 dólares e existe sempre uma van a sair pelo menos até meio da tarde, diversas vezes por dia. A viagem também pode ser feita de comboio (1 por dia, que sai cerca das 7 da manhã de Phnom Penh e demora 6-7 horas – e é preciso comprar o bilhete com antecedência, pois arrisca-se estar cheio). O melhor é comprar na estação de comboios, já que o site do Royal Railway do Camboja (royal-railway.com) funciona bastante mal. E pode igualmente ser feita de avião, em cerca de 50 minutos de voo.

Fiquei uma noite numa guest house em Sihanoukville, a San Arn (no topo norte da rua 104, 19 dólares/noite), com uma decoração estranha, mas com um bom quarto e um rececionista muito simpático e disponível, que me tratou rapidamente do bilhete do ferry para a ilha de Koh Rong (ida e volta 25 dólares, o mesmo preço que se paga no porto, com possibilidade de se escolher depois, já na ilha, a data exata de regresso). Ao fim de seis horas de van e com 38 graus de temperatura, deu muito jeito. Esta é, hoje, a verdadeira razão para se ir a Sihanoukville: apanhar o barco para Koh Rong ou para Koh Rong Samloem, duas ilhas frente a frente, no mar do Golfo da Tailândia.

Diversas companhias asseguram a viagem (cerca de 1h30 de ferry, consoante o estado do mar e o local concreto de destino), em diferentes horários, partindo do porto de Sihanoukville. Usei a Cambodia Island Speed Ferry (www.speedferrycambodia.com), sem problemas. Como muitos barcos param nas duas ilhas, Koh Rong Samloem e Koh Rong, e em diversas praias destas, convém saber bem onde se vai ficar e qual a ordem das paragens do ferry, mesmo que ela não seja necessariamente seguida… Confirmar onde se está, quando o barco atracar, até no Google Maps, ajuda! E sim, Koh Rong Samloem e Koh Rong são duas ilhas distintas, a primeira (ainda) mais deserta, a segunda com mais vida, mais pessoas, igualmente bonita. As praias são igualmente fantásticas. É escolher conforme a disposição e é naturalmente possível circular entre elas, nos barcos que saem ou tratando de alugar o próprio barco e sua “tripulação”, um táxi marítimo.

Como não há estradas nas ilhas, o transporte é sempre por mar, mesmo entre diferentes praias e pequenas povoações da mesma ilha. E como não há (ainda) ATM’s nas ilhas e não se aceitam cartões bancários, pelo menos até 2022, é mesmo importante levar dinheiro, cash, dólares, em quantidade suficiente (e a mais!). Tratar disso pelo menos em Sihanoukville é fundamental. De resto, há neste momento eletricidade e Internet (apesar de várias quebras durante o dia), ao contrário do que ainda se encontra escrito por vezes. Um excelente site para informações sobre as ilhas e como lá chegar e circular é este: www.visitkohrong.com

Koh Rong

Koh Rong só tem duas possibilidades nos próximos anos: ou é destruída como destino paradisíaco pela loucura da construção e da rentabilização imobiliária desenfreada, como se vê em Sihanoukville; ou consegue ser sabiamente mantida, a ferros, e certamente com preços que vão subir, como ilha de praia tranquila, mar verde e águas quentes, com alojamentos simples em número controlado, sem muitas construções em betão e um ambiente de aldeia convivial, onde ao fim de três dias toda a gente se conhece e se cumprimenta. Não é fácil ou rápido lá chegar, o que seguramente tem mantido a ilha como ainda está. Antecipa-se, contudo, já hoje, a tensão entre estas possibilidades. Portanto, agora é uma boa altura para se visitar, com tempo, sem pressa.

Fiquei alojado na zona de Koh (ou Kaoh) Touch, na ilha de Koh Rong, onde o barco atraca na praia, que é o que mais se aproxima de uma aldeia e funciona como centro de alojamento, restaurantes, compras e atividades, quer para os locais, quer para os visitantes. Há mercearias e uma farmácia, bem como uma “loja de transportes”, que vende bilhetes de barco e de van, para a parte continental do Camboja. Bons alojamentos são, por exemplo, a White Rose Guest House, que tem bungalows com AC e WC, na ponta sul da “aldeia”, na praia de Koh Touch. São cabanas pacíficas, com varanda, a cerca de 150 metros do mar, já em “plena selva”, 25 dólares por noite/duplo. Ou, muito perto, a guest house PSK Koh Rong, sossegada, simples, limpa, num quarto com WC e ventoinha por apenas 10 dólares por noite/duplo.

O melhor local para usufruir a praia é, no entanto, a sua ponta norte, designada White Beach, perto dos White Beach Bungalows (cerca de 35/40 dólares a noite/duplo, com AC), que são bonitos, ainda mais tranquilos e têm um bom bar de praia. Logo a seguir ficam os Tree House Bungalows, que são mesmo isso, cabanas de madeira, mas com AC, no cimo das árvores, também na praia (cerca de 45/50 dólares). Nesta parte norte da praia, que é mesmo grande, há espaço, água e areia limpas e pouca gente. Desde o cais de Koh Touch até ao extremo norte são cerca de 10 minutos a andar, pela praia (não há estradas, certo?). Pode-se também alugar uma scooter, com ou sem condutor, que lá andam na areia (mas os percursos possíveis são mesmo limitados…).

Em poucas palavras, o único problema da ilha é que se pensa ficar 3 noites e facilmente se ficam 6 ou 7… Logo, a parte de se levar dinheiro vivo para as ilhas, dólares americanos ou (muitos) riel cambojanos, é mesmo fundamental.

Na praia de Koh Touch, à noite, há cadeiras e mesas, e pode-se escolher o peixe e o marisco fresco que se quiser, vindo nesse dia do mar e grelhado mesmo ali à frente, a acompanhar com uma cerveja (no Sambath Koh Rong Restaurant, por 7 dólares a refeição, onde conheci o Bruce, o “construtor civil” da ilha, que me ofereceu cervejas e uma boa noite de conversa). Nunca se fica à espera de mesa. Ali, dez pessoas é uma multidão. Ao lado, o Bamboo é um excelente restaurante de pizzas (e só tem pizzas, entre os 6 e os 7 dólares) de um dono turco que se mudou para o Camboja por discordar do seu governo fundamentalista e abriu o seu negócio. Tentou fazer tudo legal, mas percebeu que ninguém o queria. Assim, passou simplesmente a pagar 100 dólares por ano aos fiscais que o visitam, vindos de Phnom Penh, em outubro de cada ano. Grande parte dos seus empregados são “voluntários” estrangeiros, que por ali ficam uma semana ou um mês e trabalham 8 horas por dia, seis dias por semana, um luxo asiático importado do Ocidente, a troco de alojamento, comida e 6 cervejas diárias…

Noutros restaurantes à volta, uma refeição cambojana não ultrapassa os 3, 4 dólares.

O trabalho mais intenso que se poderá esperar de quem visita Koh Rong é o de fazer festas aos muitos cães, simpáticos, que andam a brincar pela praia. Mas há também mergulho PADI disponível em Koh Touch e passeios de barco, de algumas horas, pelas diferentes praias da ilha, com snorkelling e “prova” de cervejas locais a bordo. Só que é muito, muito, muito fácil ficar na praia, com um bom livro e boa música, e não fazer rigorosamente mais nada durante horas, do dia e da noite, a não ser um mergulho ocasional para limpar o calor…

O mais parecido com “noites de copos” são no Ocean Blue, bar a meio da praia de Koh Touch, ou no Nest (na Long Set Beach). Ou, nas noites de sexta e sábado, é juntar-se a uma festa de cambojanos na praia – seremos sempre bem-vindos e poderemos apreciar, plena madrugada, locais a partilharem pedaços de baguete molhados numa lata de leite condensado, um petisco adorado por lá.

A praia ao lado da de Koh Touch, para norte, é a designada Long Set Beach, ampla nos seus quase 4 quilómetros, areia branca, água quente, com apenas alguns bungalows e bares, como o Nest, um hostel e bar/restaurante, com boa música, para um público composto exclusivamente por jovens estrangeiros a querer dormir num dormitório a 5 metros da praia por 8 dólares/noite.

Há um trilho, assinalado, entre Koh Touch/White Beach e a Long Set Beach, 25 minutos a andar pela selva e pela praia (ter sempre uma lanterna para a noite, o que significa 17h30 por vezes, e escolher, quando há opção, o caminho mais pelo interior – depois percebe-se porquê). Cuidado para não escorregar na lama durante a estação das chuvas e respeitar a distância de segurança dos escorpiões e dos macacos que por ali vivem. Os animais mais perigosos na ilha, na prática, são as sandflies, que desafiam o repelente mais poderoso… Não menorizar a coisa: as suas picadas asseguram a comichão mais intensa e durante semanas, para além de serem potencialmente transmissoras de leishmaniose. Usar, pois, um bom repelente tropical.

Os barcos vindos de Sihanoukville, e no regresso, pelo menos alguns, também param na Long Set Beach, a poucos metros do Nest, caso se prefira ficar por lá e não carregar uma mala às costas durante meia hora.

No regresso, a partir de Sihanoukville, os destinos mais prováveis serão Phnom Penh ou Kampot. Para Kampot, uma van custa cerca de 10 dólares e demora em torno de 2h30. É possível comprar bilhetes logo em Koh Touch, no cais ou na “loja de transportes” ao lado do restaurante do White Rose, ajustando ao dia e horário de chegada do ferry a Sihanoukville. As van por vezes não partem do porto de Sihanoukville, mas, quando isso acontece, o bilhete pode incluir um “transfer” em tuk-tuk ou scooter até ao local de partida do transporte para Phnom Penh ou Kampot.

Onde dormir em Koh Rong (Koh Touch e Long Set Beach): White Rose ou PSK, na aldeia (a 100 metros da praia); White Beach Bungalows ou Tree House Bungalows, mesmo na praia; Nest, em Long Set Beach (se se preferir uma camarata com mais 7 camaradas…).

Onde comer: o peixe e o marisco grelhados na praia, os pratos cambojanos do White Rose, a comida de fusão do Nest, as pizzas do Bamboo.

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