Camboja: bem-vindos a Phnom Pehn, a capital das sombras do reino
Começa a anoitecer na cidade, mas o vento é sempre suave e quente. A marginal está lotada de pessoas, vendedores locais que enchem os passeios, alguns turistas ainda de máquina fotográfica em punho, motorizadas, tuk-tuk’s e automóveis que se apressam na rua. Nas esplanadas dos hotéis mais ambiciosos, europeus repousam defronte do seu gim tónico, vários acompanhados por adolescentes cambojanas que descontraidamente teclam os seus telemóveis de última geração ou fingem-se interessadas e sorridentes perante a sua companhia. No mercado central, não muito longe do rio Mekong, apressam-se as últimas compras, num cenário feito de lixo que se empilha desordenado e de um cheiro difícil de esquecer.
Phnom Penh prepara-se para adormecer. Na porta ao lado do meu hotel, ironias do acaso, uma loja que vende caixões tem ainda as portas abertas. Os caixões reluzem no seu verniz intocado, adornados por pinturas de flores coloridas. No lado oposto, vendem-se os últimos hambúrgueres do dia, acompanhados de coca-colas e DVD’s piratas.
Phnom Penh, capital do Camboja, é um destino barato, mas ainda estranho e exigente para os ocidentais. A maioria prefere simplesmente voar diretamente para as ruínas seculares de Angkor, a antiga capital do reino, aproveitando o aeroporto internacional, os hotéis confortáveis e a placidez organizada de Siem Reap, a nova cidade a poucos quilómetros da cidade em ruínas. Aí, por exemplo, é mais fácil encontrar iluminação pública, que na capital é um bem pouco universal. Ou descobrir arquitetura colonial preservada. Ou passear de elefante entre os templos em ruínas para se deleitar ao fim do dia num spa com produtos franceses.

O principal atrativo de Phnom Penh, a par do triste turismo sexual, é a tragédia passada, que custa hoje a descobrir à primeira vista nos olhos dos muitos jovens que povoam a cidade. Sorriem e acenam, como só no Oriente se consegue fazer, mesmo sabendo-se que 40% das crianças sofre de malnutrição crónica e que um em cada três cambojanos sobrevive com menos de um dólar por dia.
A preservação da memória das tragédias recentes e a rentabilização do turismo vivem aqui de mãos dadas. Em Phnom Penh vivem as memórias recentes do período dos Khmers vermelhos, aprisionadas numa antiga escola e num campo de extermínio onde hoje os crânios das vítimas se amontoam para as fotografias dos turistas, a bem do não esquecimento e da concessão da exploração feita a uma empresa privada.
Numa manhã de sol doce, que se reflete a medo no rio e nos prédios que um dia foram brancos da marginal, conheço Arun, orgulhoso possuidor de um tuk-tuk reluzente, onde se afixa um cartaz em inglês prometendo um campo de tiro onde o turista mais entusiasmado pode lançar rockets ou granadas e usar metralhadoras. Arun explica-me, não obstante, que o seu nome significa um celestial “morning sun” e que de bom grado me levaria a visitar os espaços de memória de Tuol Sleng e Choeung Ek, a troco de 20 dólares. Fá-lo com a disciplina de um profissional, sem qualquer emoção, sem qualquer comentário. São cerca de cinco horas de passeio pelas sombras do reino, ao ritmo que eu quiser.

O museu do genocídio de Tuol Sleng fica numa esquina de um bairro residencial, feito de moradias e árvores nos passeios. Um dia foi um liceu. Em Agosto de 1975 transformou-se na prisão S-21, o espaço privilegiado de tortura e detenção na capital tomada pelos Khmers vermelhos de Pol Pot, e como tal funcionou até 1979, chefiada pelo célebre comandante Duch, um dos poucos a ser julgado pelos seus crimes. Triste ironia, Duch, antes de homem de mão de Pol Pot, tinha sido professor de Matemática. Durante quatro anos terão passado pela antiga escola mais de 17 000 prisioneiros, suspeitos de traição, espionagem ou apenas de uma adesão pouco convincente ao novo regime. Entre eles, várias crianças e adolescentes, como adolescentes eram muitos dos carcereiros e torturadores da S-21.
A estranheza quase insuportável do espaço advém também de nele se continuarem a verificar as características universais de uma escola e de se ter mantido o enxerto prisional que sofreu, tal como encontrado no momento da sua libertação pelo exército vietnamita.
As antigas salas de aulas, contíguas, ao longo dos corredores dos edifícios, mostram quadros de ardósia nas paredes. Mas, em várias delas, descobre-se também o imprevisto. Divisórias toscas de tijolo e cimento, que criaram celas individuais rudimentares, de não mais do que três metros quadrados. Camas de ferro alinham-se ainda ao lado de algemas e de instrumentos de tortura. Pequenas caixas de ferro displicentemente dispostas no chão recordam que eram estas as únicas instalações sanitárias dos reclusos. Uma das paredes exibe uma longa contagem dos dias, gravada no cimento, feita por alguém.
Numa das salas mostram-se reproduções dos arquivos da prisão, fichas individuais dos presos, fotografias. Muitas fotografias, que retratam homens, mulheres e crianças, sem nome, como ainda hoje muitos dos que ali acabaram os seus dias.
No pátio da antiga escola, pontuado por árvores floridas, descobrem-se algumas campas de antigos reclusos. São poucas. A maioria dos anteriores habitantes de Tuol Sleng acabou em valas comuns, sem epitáfio e sem esperança. Os corredores e as escadarias são agora ocupados por turistas e por alunos das escolas de Phnom Penh.
No pátio central, vê-se uma instalação de madeira, a recordar a estrutura de uma forca. Serviu para a prática de uma tortura cuja técnica se descobre igualmente nas regras da Inquisição europeia de há cinco séculos, os tratos de polé, suspendendo-se pelos braços numa trave o acusado e deixando que o seu peso e a tração a que era sujeito cumprissem o seu destino.
Na S-21 reformava-se o país à medida de Pol Pot e dos seus seguidores. Impunha-se pela violência e pelo medo uma terra de trabalhadores analfabetos e submissos. A antiga escola era usada em especial como ferramenta de anulação de opositores políticos, artistas, professores, intelectuais ou supostos espiões e dissidentes do partido. Todos aqueles que representavam um risco para o regime.
Muitos dos que chegaram a Tuol Sleng e sobreviveram à tortura e às condições prisionais, acabaram os seus dias no campo de extermínio de Choeung Ek, a pouco mais de uma dezena de quilómetros de Phnom Penh. Arun transporta-me até aos arredores, por entre o trânsito caótico e o pó da cidade, com a eficiência indiferente de mais um dia de trabalho.
Perante o número crescente de prisioneiros do regime, é aberto o campo de Choeung Ek , à semelhança de outros pelo país, enquanto espaços destinados à mera aniquilação dos reclusos que para ali eram transportados. Hoje, um monumento budista destaca-se no espaço, com a sua torre envidraçada exibindo milhares de crânios descobertos nas valas comuns à volta, à mercê dos flashes das máquinas fotográficas dos visitantes. Está-se num campo verdejante, com árvores frondosas, plantações de arroz em volta e água que corre em riachos. Grupos de turistas circulam em silêncio, por entre as valas comuns cobertas de erva, assinaladas com placas onde se pede para não pisar…
Algumas tabuletas explicam em detalhe o que seria impossível antecipar. Como o espaço onde se amontoavam os presos, vendados e atados, apenas ouvindo gravações de música festiva e de slogans apologéticos num volume elevado, que os iludia quanto ao seu destino desconhecido. A música permitia encobrir os gritos dos que os antecediam. E garantia um mínimo de esperança que tornava o trabalho dos seus carrascos mais tranquilo, socorrendo-se de machados, picaretas, facas ou de qualquer outra ferramenta que cumprisse a tarefa. Poucos terão sido fuzilados: as munições custavam dinheiro.
Ou como a árvore imponente de onde se veem pender centenas de pequenas pulseiras coloridas. Era a árvore usada para matar crianças, que pelo seu tamanho podiam ser arremessadas pelas pernas contra o tronco da árvore, oferecendo aos militares uma morte rápida, simples e quase impossível de acreditar. O silêncio verde de Cheoung Ek resulta afinal numa abominação.
O regresso a Phnom Penh é necessariamente penoso. Arun deixa-me de novo na margem do Mekong, onde os restaurantes de cozinha de fusão e as montras anunciando massagens aos turistas pretendem explicar o que mudou no Camboja. A grande fábrica dos têxteis baratos do Ocidente e onde 10% do seu PIB já provém do turismo, feito em boa parte dos templos abandonados de Angkor e das memórias difíceis dos Khmers vermelhos. Afinal, recordar também é esquecer, procura-se demonstrar nos fátuos vestígios de humanidade de Cheoung Ek e nos ferros abandonados de Tuol Sleng. Recordar também é esquecer. Até ao próximo passado.

Recomendações adicionais. Um alojamento decente e barato pode ser o Best Central Point Hotel, cerca de 20 a 25 dólares por noite (quarto para até 2 pessoas, com casa de banho e AC), rua 172, n.º 35. Uma loja curiosa é a Trunkh – loja de produtos artesanais do Camboja, de bom gosto, com preço elevado para o padrão local, mas verdadeiramente bonitos –, na rua 19, n.º 126. Mercados abundam em PP. O Mercado Central é um bom ponto de partida, com a sua arquitetura inconfundível, onde facilmente se perdem umas horas e de onde se pode levar meio porco e uma mala fake de volta ao hotel.
(texto originalmente publicado no jornal i, com alterações)
