Camboja: de comboio entre Battanbang e Pnhom Pehn (crónica de uma viagem demorada)
Sem querer voltar a Siem Reap e Angkhor, grandes destinos, mas plenos de turistas, resolvi experimentar a última novidade no país. Os comboios de passageiros voltaram a funcionar no Camboja apenas em julho de 2018, depois de muitos anos de interrupção.. Portanto haveria que experimentar! Mas não é fácil apanhar um.
Há pessoas que simplesmente gostam de comboios e isso não tem nada que ver com poder deslocar-se de um lado para o outro. Eu sou uma delas.
Comecei por perder um comboio que não sabia que existia (e a informação no seat61.com não estava certa…). Cheguei à estação de comboios de Pnhom Pehn (PP) numa segunda-feira por volta das 9h da manhã para ver como poderia viajar e percebi que o único comboio da semana com destino a Poipet, no noroeste do país e junto à fronteira com a Tailândia, já tinha partido, para cerca de catorze horas de viagem. Só no próximo sábado haveria novo comboio. Para Sihanoukville, no sul, apenas também haveria comboio durante o fim-de-semana….
Resolvi então fazer uma coisa absurda e bem-sucedida. Arranjei um jipe com motorista, um daqueles jipes americanos enormes de vidros pretos e, qual drug lord da Indochina, lá atravessámos boa parte do Camboja até Battambang, já mais perto de Poipet e uma cidade mais interessante e tranquila do que a fronteira. Porquê? Bem, porque o comboio voltaria na manhã seguinte a PP, fazendo o trajeto inverso. Corri atrás, dele, portanto. “Ainda o apanhamos!”, como escrevia o Eça. Na bilheteira diziam-me que no dia seguinte o comboio passaria por Battambang por volta do meio-dia, sem grandes certezas… Um cartaz em papel anunciava a partida de Battambang às 10h35 e a chegada a PP às 20h30. A menina na bilheteira não o sabia confirmar.
A viagem até Battanbang, já feita ao entardecer e durante a noite, corre numa estrada que vai alternado camiões, cães, bicicletas, pessoas a pé, muitos buracos no alcatrão e pequenas mercearias na berma. Dara, meu motorista de ocasião, gostava especialmente de conduzir com os quatro piscas ligados e os faróis nos máximos – sempre, ao longo dos quase 300 quilómetros. Espero que não tenhamos enviado ninguém para fora da estrada, mas não o posso garantir. Cheguei a Battanbang às onze da noite, após seis horas de carro, pronto para uma noite de sono (tinha antes reservado o Holiday Hotel, relativamente perto da estação de comboios de Battambang).
Na manhã seguinte, seis e meia da manhã, passei pela estação. Estava aberta, mas não se via ninguém. Na porta um cartaz informava, também em inglês, que o comboio ali chegaria às 9h, vindo de Poipet, partindo dez minutos depois. Tinha tempo, portanto. Fui assim tranquilamente até ao rio, o centro da cidade, onde se encontram as casas mais antigas, na traça colonial francesa, onde as lojas começavam a abrir e a cidade a acordar.
Comprei um cacho de bananas no mercado. Ouvi cooperantes americanos queixarem-se de tudo e mais alguma coisa na esplanada de um café, enquanto despachavam um imenso prato de ovos e bacon. Escondi-me da chuva. E pelas 8h30 estava de novo na estação.
Agora havia algum movimento. A sala de espera tinha pessoas, uma motorizada lá dentro, algumas malas e sacos pelo chão. Uma menina sorridente, que falava algum inglês, vendia bilhetes com um ar profissional, sentada atrás de uma secretária no meio da sala de espera. E a que horas afinal seria o comboio? Na manhã anterior tinham-me dito por volta das 12h. Na porta da estação apontava-se a partida para as 9h10. No horário escrevia-se 10h35. E na bilheteira simplesmente confirmavam o óbvio:
— Não sabemos. Pode ser às nove, às nove e meia, às dez, mais tarde…
E preparei-me, bilhete na mão e sem lugar marcado, para a espera na estação cada vez mais animada de Battambang. Como era o único estrangeiro, passei portanto algumas horas com crianças em torno de mim, sorrindo e a fugirem da máquina fotográfica.

O comboio chegou afinal às 11h. E parece que alguém tinha essa informação, porque dez minutos antes o número de passageiros aumentou consideravelmente. Um outro ocidental veio falar comigo e acabámos a partilhar a mesma carruagem. Um australiano simpático de 45 anos que vivia em Londres e que estava quase no fim de um ano sabático a viajar pela Ásia. Explicava-me que trabalhava na unidade de anti-branqueamento de capitais de um grande banco inglês e que, depois de anos a lidar com oligarcas de tudo o mundo e famílias reais do Médio Oriente, tinha mesmo de mudar de vida… Pois.
O comboio era um antigo comboio francês, francamente modernizado, anunciando “Royal Railway” no exterior das composições. Tinha um ar condicionado gélido, televisor, tomadas para ligar telefones e computadores. E tinha muitos passageiros, famílias que iam conversando alegremente e trocando de lugar a cada quinze minutos ou pessoas em trabalho para PP. O pouco inglês que se falava ali era compensado largamente pela curiosidade e pela generosidade dos cambojanos para comigo e para com o australiano. Ofereceram-nos amendoins e conversas. Um dos nossos comparsas ficou chocado como em inglês não seria imediatamente adequado tratar um desconhecido por “irmão” ou “irmã”, algo que na língua khmer lhe parecia o mais natural. Outro, pai de três crianças pequenas que nos infernizaram a vida durante horas, parecia querer ser salvo daquele caos, mas apenas conseguiu que uma delas me trepasse pelas pernas acima, qual Everest de ocasião.
A compostura inicial de dignos viajantes, ostentada por todos nós, obviamente que foi sendo aligeirada ao longo da viagem. Passadas umas horas, os chinelos pelo chão, os sacos de laranjas e de batatas, os telemóveis, os amendoins e tudo o mais que aquela carruagem levava, incluindo os passageiros, era já apenas uma massa confusa e colorida, sonolenta, entediada. Nunca se viu um amendoim entediado? Há que vir ao Camboja.
A paisagem avistada do comboio não muda muito ao longo da viagem. É bonita, tranquila. Campos de arroz verdes e alagados, no final da estação das chuvas, com algumas montanhas ao fundo. Vacas e búfalos a pastar. Crianças e adultos ainda espantados pelo comboio que passava quase rente às suas casas. Aldeias adormecidas onde se estende a roupa na linha do comboio (os carris e as pedras afinal aquecem bastante ao sol), tarefa apenas perturbada pela passagem muito ocasional do dito.
A paragem mais demorada foi em Pursat, quase a meio caminho, por volta das três da tarde. Uma meia hora, que todos aproveitaram para desentorpecer as pernas e para se abastecerem de comida na estação. Optei por um hot dog local, sem salsicha, mas com algo que se assemelhava a chucrute, só que em bom, por 70 cêntimos. E com folhas de lemon grass e, claro, muito molho picante.
À medida que nos aproximávamos de PP, começou a cair uma chuva forte e os relâmpagos iluminavam o céu. Chuva forte talvez seja minimizar a coisa. Caiu um dilúvio que Noé não desdenharia. Mas as pessoas apenas bocejavam e as crianças simplesmente embirravam cada vez mais umas com as outras e com o mundo, neste dia de mundo concentrado naquela carruagem.
De Battambang a PP, cerca de 300 km, foram só onze horas de comboio, cerca de 27 km/h em média… Chegou-se já passava das dez da noite, no meio ainda de uma violenta tempestade. As pessoas apressavam-se a carregar as malas e a fugir da chuva. Os tuk-tuk inflacionavam os seus preços, buzinando no meio da água quente que caía do céu. E assim os comboios regressaram ao Camboja.
Royal Railway do Camboja: royal-railway.com
