Os primeiros destinos de Bali: Kuta e Ubud

Bali, Bali… Quantas Bali existem?

Existe a Bali feita para australianos, russos e outros “ocidentais” que se arrastam de Bintang em Bintang, de bar em bar, pelas epigrafias de Kuta, Legian e Seminyak, logo a norte do aeroporto de Denpasar. Onde em qualquer esquina somos eventualmente fornecidos de “massage?”, “cocaine?” ou “ladies?”, tudo produção local com certeza. Onde encontrei por exemplo o Paul, belga, 58 anos, que vive com a mãe na Bélgica e que desde há 15 anos vai a Bali de dois em dois meses, sempre para o mesmo hotel, na mesma rua, beber as suas 15 cervejas diárias ao longo das noites e nunca conheceu mais da Indonésia nem nunca o quis. Onde se pode comer nasi goreng às quatro da manhã acompanhado por um caffe latte acabado de fazer. E onde a sensação de ressaca e de vazio é garantida pela manhã, pelo que o melhor é não deixar quebrar o ciclo… Mas Kuta tem um extenso areal, ponteado sucessivamente por “escolas” de surf, camas e chapéus de sol e vendedores de tudo, que vale a pena conhecer.

Existe ainda a Bali dos resorts de arame farpado e com guardas armados à porta, como os da zona a sul, da península de Nusa Dua, onde se vive a ficção de uma terra que felizmente não é real, feita apenas de voos charter, luas-de-mel, sorrisos e mojitos 24/7.

Existe também a Bali talvez um bocadinho irritante de tão zen que quer ser, da zona de Ubud, que estou convencido de que foi uma invenção americana para vender livros de autoajuda, onde há sempre “campos de arroz verdejantes” (lá o arroz nunca seca?…) e ioga até mais não. Quase uma crise de ansiedade garantida, portanto.

Mas Ubud, conceda-se, é confortável e bonito. Fiquei no ótimo hotel Terrace Ubud (25 euros/noite), perto da Floresta dos Macacos, no centro de Ubud (cerca de 250 000 rupias desde Kuta ou do aeroporto de Denpassar em táxi). Os preços e a oferta turística em Ubud são mais elevados do que no resto da ilha de Bali. As lojas vendem peças de design que poderiam estar à venda em Amesterdão ou Berlim. Os taxistas de Ubud (que circulam pelas ruas mostrando placas que dizem “Transport”) proíbem a entrada na cidade de Uber, Go-Jek (uma Uber local) e até de… outros taxistas (que não os taxistas locais, portanto).

Mas a cidade é agradável, os templos hindus bonitos, os campos de arroz existem mesmo até a poucas centenas de metros do centro urbano e a sensação geral que fica é de tranquilidade e paz, mesmo que com a noção de que há ali algo (muito) de artificial e produzido para estrangeiro ver (e pagar).

A Floresta dos Macacos é provavelmente o grande atrativo da cidade de Ubud, porque é isso mesmo que o nome anuncia. Uma grande área de floresta habitada por muitos macacos nada tímidos, que se passeiam por entre os muitos visitantes, por vezes ultrapassando, uns e outros, a fronteira do respeito e da distância mútuos. Mas sem dramas, que somos todos afinal da mesma família.

Não muito longe de Ubud, vale também a pena conhecer o campo: as cascatas, os vales de arroz, as pequenas aldeias, os santuários hindus (Bali é uma ilha de população maioritariamente hindu, distinguindo-se da restante Indonésia predominantemente muçulmana). O ideal é alugar um carro (cerca de 20 euros por dia) e conduzir à vontade (volante à direita, trânsito caótico, um susto a cada metro), mas existem condutores e transportes que substituem esse ordálio.

É preciso contar com tempo, muito tempo, para as viagens. As estradas são poucas e estreitas – as principais fazendo essencialmente ligações norte-sul –, sempre cheias de tráfego. Pode-se levar uma hora ou mais a fazer apenas 20 quilómetros.

A cascata Tegenungan é das mais conhecidas e, sim, mesmo cheia de turistas, vale a pena a viagem, especialmente se se for de manhã cedo, evitando as maiores enchentes e o calor. Não muito longe, um vale cheio de plantações de arroz e perfeito para as fotografias e experimentar um baloiço elevado sobre os campos é Tegalalang. Para quem não dispense compras diversas, e a quem não chegue a oferta em Ubud (que tem um mercado formal junto do Water Palace e zonas na rua com vendedores em permanência, sendo a mais conhecida o designado “Ubud Art Market”, a poucos metros) pode ir até ao mercado de Sukawati, na aldeia com o mesmo nome, que são três enormes pavilhões apinhados de tudo e mais alguma coisa que possa remotamente evocar Bali, onde supostamente os vendedores em Ubud se abastacem.

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