Jacarta, a metrópole: guia rápido para quem, como os indonésios, tem sempre pressa
Jacarta, ilha de Java, capital da Indonésia. Chego ao país dos aviões que caem, dos ferries que afundam, dos vulcões que espalham lava e cinzas pelas redondezas. E algo mais? Claro que sim. E muito melhor.
Jacarta é a evolução da antiga Batavia holandesa, cidade de porto, chegadas e partidas, entregue aos indonésios aberta a segunda metade do século XX. Mais de 10 milhões de pessoas só na zona central, 30 milhões na Grande Jacarta, uma cidade enorme, dizem que feita do cimento, da vontade, da pobreza e do sonho dos indonésios.
Uma história anterior aos holandeses escrita por hindus e muçulmanos e até por alguns portugueses do século XVI. A ilha de Java, hoje a mais habitada ilha do planeta e, já agora, uma das eventuais origens do homem, pelo menos do de Java, numa imagem que aos meus 10 anos tinha afixada na sala de aulas, o “homem de Java”, o tal “Pithecanthropus erectus” que concorria então com o “Homo sapiens”, muito latim para disfarçarmos afinal a nossa provável ignorância sobre esse passado.
Jacarta é enorme, mas é também estranhamente simples de compreender a sua “geografia de viagem”, mesmo para quem apenas cá esteja por uns dias. A simpatia das pessoas, a quase ausência de turistas estrangeiros e os preços baixos para o padrão ocidental são alguns dos seus atrativos mais imediatos.
Isto agora é para ler com um mapa ao lado (pronto, Google Maps, pode ser). O centro da cidade é para todos os efeitos a praça Merdeka, o parque central, onde o obelisco criado por Sukarno, Monas, se torna bem visível. A partir daqui tudo é fácil, se esquecermos o calor, a humidade, o trânsito que não anda, as distâncias impossíveis de fazer a pé… É preciso andar de táxi, portanto, baratos e fiáveis em geral, especialmente os da empresa Blue Bird, que usam taxímetro. Raramente uma (longa) viagem na cidade ficará por mais de 100 000 rupias indonésias, habitualmente será 30 000 a 60 000 rupias (3 euros).
Onde ir? Desde a praça Merdeka, para norte, em direção em mar, fica a velha cidade colonial de Batavia, hoje a Kota Tua, e o porto, Sunda Kelapa, que vale a pena conhecer; e, mesmo antes de lá se chegar, está o bairro da comunidade chinesa, Glodok, bom para um passeio no meio dos vendedores que ocupam as ruas estreitas e espreitar os templos. Fica também a estação de comboios de Gambir, de onde se parte, se for o caso, para as outras cidades da ilha.
Logo a sul da Merdeka, a zona de Jalan Jaksa e Kampung Bali. Mais longe, a sul e sudeste da praça central, as zonas de Menteng e Ciniki, mais contemporâneas. A oeste do centro, a zona de Tanah Abang, bairro e também o gigantesco mercado grossista dos tecidos.
Provavelmente não vai ficar uma eternidade em Jacarta. Uma zona agradável e central para ficar é junto das ruas Jalan Jaksa ou Jalan KH. Wahid Kasyim, onde se combinam hotéis ocidentais, restaurantes locais, bares e Starbucks e afins. Um hotel “da moda”, com um restaurante bom aberto 24 horas e um bar no último andar com vistas sobre a cidade é o hotel Kosenda (Jalan KH. Wahid Kasyim). Outra alternativa, tranquila e mais autêntica, a poucas centenas de metros, é o bairro de Kampung Bali, com as suas casas térreas ou de primeiro andar e ruas com três metros de largura, uma aldeia dentro da grande cidade, e onde alguns pequenos hotéis também se instalaram. Não vale a pena esperar, neste último caso, é grandes luxos (e a água quente ou uma janela no quarto podem aqui ser um luxo…). Esta foi a minha escolha – no caso, o OYO 101 Apple Platinum, na Jalan Kampung Bali X, 17 (13 euros a noite num quarto com casa de banho e ar condicionado).
Um hotel alguns pontos acima pode custar cerca de 30 a 40 euros por noite, ficando bem instalado. Uma refeição simples ronda as 50 000 rupias (3 euros). Se for num bom restaurante ou num hotel mais ambicioso, pagará pelo menos 200 000 (12 euros) por pessoa.
E o que vale mesmo a pena ver em Jacarta? Desde logo, passear por Kota Tua (a “cidade velha”) e por Glodok.
Kota Tua – e a sua praça central, Taman Fatahillah – concentra a arquitetura pública de Batavia, edifícios transplantados da Flandres dos séculos XVII e XVIII, muitos deles hoje em ruínas ou quase, outros recuperados para museus, restaurantes ou bares. Na praça está o famoso Café Batavia e o curioso museu de wayang, marionetas indonésias (Museum Wayang).
Kota Tua estende-se até à zona do porto e do Museu Marítimo (Museum Bahari), que ocupa antigos armazéns da Companhia das Indias holandesa e expõe um sextante. Junto ao museu pode encontrar o Pak (e ele encontrá-lo-á, não se preocupe), com a oferta de um passeio guiado pela zona do porto como pendura na sua mota. Pode ouvi-lo dizer que trabalha no museu (é duvidoso) e que até vem referido no guia da Lonely Planet (isto já é mesmo verdade). Quando soube que eu era português, presenteou-me com três nomes num português perfeito e por esta ordem: Ana Gomes, Vasco da Gama e Cristiano Ronaldo. Às vezes é mesmo preciso ir longe para ver diferente… E recordou-me ainda que o bahasa indonésio tem muitas palavras com a sua origem no português. “Pao” é “pão”, certo?
Glodok, a zona contígua a sul, é o bairro chinês, onde a vida se faz na rua – e por vida leia-se as compras e os negócios – e nas suas ruas e becos cabe sempre mais alguém. Se estiver mesmo interessado, pode até combinar a compra de sapos esfolados com, logo na esteira ao lado, DVD’s dos últimos sucessos asiáticos.
Jalan Jaksa e as ruas à volta e a zona de Menteng é a outra Jakarta, moderna, talvez mais confortável para o visitante… desde que este não decida andar a pé. A fantástica cozinha indonésia é aqui um dos grandes atrativos. Normalmente vai melhorando a experiência consoante aumenta o preço que estamos disponíveis para pagar – e, mesmo se isso não é sempre verdade, em Jacarta tende a ser assim. O que se mantém igual é a Bintang, que seria sempre uma ótima cerveja em qualquer sítio do mundo.
E as compras, passatempo nacional indonésio? Há pelo menos duas formas distintas de abordar o tema…
A primeira são os muitos e gigantescos centros comerciais de Jacarta, espalhados pela cidade (logo a sul da zona de Jalan Jaksa estão vários), oásis de ar condicionado, lojas ocidentais e protoocidentais e food courts. O maior e representativo dessa vida urbana é o Grand Indonesia Mall, que tem nos últimos andares bons restaurantes para descobrir a culinária das ilhas, acompanhados pelos globais italianos e japoneses.
A segunda via, menos convencional, pode ter pelo menos três nomes envolvidos. O primeiro a saber é Jalan Surabaya, uma rua que concentra vendedores de – algumas não tão prováveis, é certo – antiguidades locais, na zona de Menteng, que pelo menos garante algo de diferente de uma ida à Zara (ou à Hermès, porventura). O segundo nome é o mercado de tecidos e roupas de Tanah Abang (a oeste da Merdeka), que não é para fracos, mas é o nome a reter quer para uma simples t-shirt “I love Jakarta”, quer para 30 metros de tecido para forrar os sofás lá de casa. E para muitas opções entre estas possibilidades, sempre com muito calor à mistura e (grande) paciência para as multidões. Por fim, o mercado de Pasar Baru, não muito longe da Jalan Surabaya, é um dos muitos mercados de rua de Jacarta, que serve principalmente os locais, com bons preços para um ocidental e um leque alargado de malas fake, batik e tudo o mais.





