Gran Canária para uma semana de férias com crianças?

Uma semana de férias com crianças na Gran Canária, a meio caminho entre a Europa e África, prescindindo de pacotes de férias e afins, foi afinal uma excelente ideia. Agora que há voos regulares diretos, estas ilhas espanholas estão a pouco mais de duas horas de Lisboa.

Pensei que podia ser uma chatice, ser apenas mais uma ilha de praia de turismo hipermassificado para os nórdicos e os alemães em fim de vida, com restaurantes de plástico e comida de plástico e atividades de plástico, mas não foi nada disso. No litoral da ilha, o clima é quente e húmido, sem exageros, com noites agradáveis e naturalmente mais frescas do que a temperatura de dia.

 

Onde ficar?

Provavelmente o melhor local para ficar alojado será na zona de Meloneras/Maspalomas/Playa del Inglès, na costa sul da ilha. Há imensas possibilidades aqui, desde hotéis gigantes de 4 e 5 estrelas a apartamentos em zonas mais residenciais.

A zona de Meloneras/Maspalomas está para a Playa del Inglès um bocadinho como Vilamoura está para Quarteira. Mesmo se esta é uma Quarteira mais qualificada. Na verdade, são áreas contíguas e, dependendo um pouco do quotidiano que se adote, é possível que nunca se note a diferença, especialmente passando os dias fora do alojamento. Os hotéis aqui, junto à praia, prevêem que os seus hóspedes por ali fiquem, circundados pelo pouco verde que se vê na ilha, para além dos catos e das bananeiras: campos de golfe.

A zona da Playa del Inglès, apesar de parecer ter sido feita apenas para turistas alemães e com turistas alemães de calções e sandálias com meias brancas, a cumprir escrupulosamente a sua dieta diária de cerveja, e ter clubes anunciados como “de swing” com um ar mais do que duvidoso, pode ser uma escolha pragmática: tem alojamento mais variado e mais barato do que noutras zonas, desde que se tenha um carro para circular pela ilha; e hotéis razoáveis ou francamente bons, com boas piscinas e espaço; supermercados e restaurantes em cada rua, de modo a que as refeições e as compras estão sempre asseguradas, a qualquer hora do dia ou da noite. E centros comerciais de aspeto estranho, mas que parecem todos ter um espaço de minigolfe, funcionais especialmente a partir do fim da tarde. Em todo o caso, o que importa ali é conseguir não acabar com uma ampla sexagenária alemã ao lado, na manhã seguinte.

Um alojamento para 4 pessoas (no caso, um apartamento com 2 quartos, sala, cozinha, WC e um terraço, num aparthotel com uma boa piscina e com restaurantes e pequenos supermercados à volta – o Éo Las Rosas) pode custar cerca de 80 euros/noite ou um pouco mais (em setembro).

 

Alugar um carro

Ter transporte próprio na ilha é fundamental, especialmente com crianças e querendo autonomia de decisão sobre o que fazer e quando. Alugar um carro por 7 dias, tomado logo no aeroporto e devolvido no regresso, custa apenas cerca de 140 euros (optei pela AutoReisen, sem qualquer problema).

Para quem alugue um carro, a autoestrada, sem portagens, desde a zona a norte da capital do arquipélago, Las Palmas, situada no extremo nordeste da ilha, e que continua pela costa leste, passando pelo aeroporto, que contorna a costa sul, e passa Mogán, já a caminho da costa ocidental, é mesmo a melhor forma de circular rapidamente pelas diferentes zonas da costa da ilha. Apesar de haver alternativas, desde logo as estradas secundárias que seguem mais junto ao mar, que vale a pena também conhecer.

 

Praia!

O melhor a fazer numa semana de férias com crianças é, de longe, estar na praia e programar atividades na praia e no mar ou, pelo menos, com água. E usar muito protetor solar, que isto, na verdade, é sol africano, por mais que se denomine de Espanha.

As melhores praias da ilha, com bons acessos, estão na costa sul e sudoeste (até Mogán).

São praias de água quente e cristalina, umas com areia branca, outras com areia entre o cinza e o negro. Destaco algumas, das dezenas que existem:

– Praia de Puerto de Mogán: pequena, mas tranquila; uma baía de areia branca, uma ondas e de água limpa e quente; talvez numa localidade demasiado turística e aprimorada para o visitante ocasional, talvez, mas a aldeia branca original, de casas baixas, disposta na encosta vulcânica em torno da praia, oferece uma imagem de verdade difícil de substituir.

– Praia de Arguineguín: uma baía de areia negra e água quente, numa povoação de pescadores que ainda se mantém razoavelmente preservada, com os seus horários, habitantes e estilos próprios. Bons bares e restaurantes com esplanada na marginal, junto à praia, o que significa que os pais podem  ficar a beber uma cerveja e ainda assim ver os pequenos na areia.

– Praia de Amadores: uma praia numa baía lindíssima, com espaço e um parque de insufláveis, no mar, que as crianças vão simplesmente adorar. Depois da praia, o melhor a fazer é ir até ao Clube Amadores umas horas, um espaço de piscinas, jacuzzis, espreguiçadeiras e puffs, música ao vivo, dj’s e um ambiente chill out, mesmo ao lado da praia, onde os mais crescidos se vão sentir muito bem (mas os mais pequenos também, até porque são lá muito bem-vindos).

E, para além da praia e de tentar ressonar na piscina do hotel, o que fazer na Gran Canária, especialmente com crianças pequenas?

Se acontecer como a nós, aterrar na ilha, mas sem terem chegado as malas despachadas para o porão, podem ter de ir ao Centro Comercial El Tablero, com lojas de roupa (Zaras, Calzedonias e afins) e um grande supermercado – fica junto à autoestrada, a oeste de Maspalomas – onde se pode comprar a roupa e os produtos de higiene básicos, para mais com crianças… Ou qualquer supermercado e lojas adjacentes, na zona da Playa del Inglès ou na cidade de Las Palmas e seus arredores, resolve igualmente a dificuldade.

E quando toda a gente estiver farta da praia?

Há pelo menos mais cinco coisas que posso aconselhar:

– Parque aquático Aqualand:  na zona de Maspalomas (comprar os bilhetes online, que são mais baratos), é o parque aquático típico, mas razoavelmente tranquilo e sem dimensões exageradas. Se possível, levar comida, porque lá só se vendem pizzas e hambúrgueres a preços hiperinflacionados e especialmente maus…

– Passeio em camelo nas dunas de Maspalomas: não deve haver muitos sítios na Europa onde se possa passear por dunas em camelo (na verdade, dromedários…). Aqui pode-se. Toda a gente vai gostar. O ideal é ir de manhã mais cedo, para evitar o pico do calor, mesmo se o passeio dura apenas cerca de 30 minutos.

– Passeio de barco para ver golfinhos e baleias: é uma das ofertas principais da ilha, com barcos a sair de diversos locais, com programas semelhantes. Pode sair-se por exemplo de Puerto Rico, num catamaran (os bilhetes podem ser comprados online ou um pouco por toda a ilha). Ao todo a viagem pode durar umas três horas e inclui uns mergulhos no mar, para quem quiser. E vêem-se mesmo golfinhos e baleias.

– Ir a Teror: é uma povoação tradicional no interior norte da ilha, numa zona mais montanhosa, que permite conhecer outras paisagens e outras vistas. Almoçar lá é uma boa opção, já que permite comer um “gofio escaldado” genuíno (uma papa regional de milho tostado, densa e feita com diversas nuances de sabor) e provar o excelente chouriço de Teror, acompanhado pelos queijos da zona.

– Ir a Gáldar, ao museu da Cueva Pintada: na localidade de Gáldar, este é um espaço arqueológico relativamente recente, que aproveitou a descoberta de uma povoação antiga mesmo no centro desta vila. O museu e o percurso de visita às construções, túmulos e pinturas pré-hispânicas, datadas desde o século VI, e pertencentes aos primeiros habitantes das ilhas, provavelmente berberes chegados do norte de África e seus descendentes, é bonito, explicativo e interessante, até mesmo para crianças que só queiram saber onde há wi-fi.

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