Do Laos à Tailândia pela estrada e de comboio em menos de 24 horas

A minha opção foi, desde Vang Vieng, fazer uma tarde na estrada e uma noite de comboio e acordar em Banguecoque, em menos de 24 horas. Mas podia ter começado, mais cedo, mais a norte, em Luang Prabang, já que a linha é a mesma, a nova linha férrea que atravessa norte-sul o Laos até à China, em comboios novos e confortáveis. No entanto, a ligação internacional não é direta e é preciso fazer a fronteira para a Tailândia passando a “ponte da amizade”, entrando na Tailândia a pé e mudando de comboio.

O comboio na Tailândia, optando pelo comboio noturno desde Nong Khai (a fronteira tailandesa mais perto da capital do Laos, Vientiane), tem a opção de cama em primeira ou segunda classe, com ar condicionado, ou um banco (não reclinável!) em terceira classe sem ar condicionado (o que não vai querer). Os bilhetes podem ser comprados online, por exemplo no www.12go.asia, nas agências físicas que existem em qualquer cidade ou mesmo nos alojamentos. Comprei no alojamento onde estava, com todos os transportes incluídos.

O custo da viagem desde Vang Vieng até Banguecoque é de cerca de 1 550 000 – 1 750 000 kip (70 a 80 euros), incluindo o transporte em vans de 9 lugares desde o alojamento em VV até Nong Khai, já na Tailândia, e comboio noturno daí em diante. Apenas o bilhete de comboio em primeira de Nong Khai até Banguecoque custa cerca de 35 euros.

O comboio mais confortável para se apanhar em Nong Khai é o das 19h40 para Banguecoque, o Super Express, que chega de manhã à capital. Ao contrário do que os miúdos cronicamente fazem, o beliche de cima é o que se deve evitar, basicamente pelo ar condicionado mesmo perto da cabeça e eventualmente por ser mais difícil de aceder (o de baixo é, aliás, ligeiramente mais caro). Há tomadas (europeias) e portas USB para carregar geringonças nos compartimentos.

Andar de comboio na Tailândia continua a ser uma coisa a sério. A tripulação, bem fardada, saúda com continência o seu superior na estação. Pode-se jantar servido no lugar. Vão fazer a cama, com lençóis brancos, quando se pedir (mas convém ir agasalhado, que o ar condicionado aqui não brinca). E, quem quiser (em primeira!), pode tomar um duche antes de chegar ao destino, na ponta da carruagem. Sim, é o mesmo preço de um bilhete de avião e parece ser dez vezes mais de tempo (não contando com as idas e vindas dos aeroportos e as horas de antecedência para o voo…), mas, para quem gosta de comboios e de dormir embalado em viagem, vale muito a pena.

A diferença de classe entre a primeira e a segunda é basicamente que, em primeira, se está num compartimento de 2 ou 4 pessoas, com camas confortáveis e porta que se fecha por dentro e, em segunda, há um como que um dormitório único, com beliches em cima e em baixo ao longo de toda a carruagem, com cortinas para garantir mais privacidade quando se dorme. Ambas têm ar condicionado. Os bancos são transformados em camas pelos tripulantes, antes da hora de dormir. Eu acabei por ficar sozinho num compartimento de duas pessoas, pelo que tive o quarto só para mim.

Vientiane (na pureza da língua portuguesa, Vienciana…), ponto de escala, em tempos a capital mais adormecida da Ásia, já tem um pouco mais movimento. Com o rio Mekong a fazer-lhe companhia, é uma cidade agradável. Esplanadas sobre o rio ao pôr do sol, ruas verdejantes e pacíficas, alguma arquitetura colonial francesa, templos dourados aqui e ali. A melhor zona para ficar na cidade, optando por isso, é a área de Nam Phu, central e perto do Mekong, com cafés, restaurantes, lojas e vida.

Então, como funciona a viagem, cheia de mudanças e esperas?

(Desde Vang Vieng, do alojamento)

– 11:30 – Saída do hotel, num camião tuk tuk, para um posto de gasolina, à saída da cidade, que funciona como entreposto de transportes;

– 12:30 – Mudança para um pequeno autocarro, 25 lugares, que faz a nova autoestrada “Laos-China” até à capital, Vientiane;

– 14:00 – Chegada a Vientiane e ida, a pé, poucos metros de distância, até ao Memory Hotel, com nova espera, mas que dá para andar um pouco na cidade sem a mala atrás;

(Desde Vientiane)

– 15:00 – Transporte em van, com recolha de algumas outras pessoas em hotéis da cidade e ida para a fronteira;

– 16:20 – Chegada à fronteira do lado do Laos; depois de vários carimbos no passaporte, um velho autocarro (bilhete: 20 bath) faz a “ponte da amizade Laos-Tailândia” em 5 minutos;

– 16:40 – Entrada na Tailândia (Nong Khai); passado o controlo de passaporte, e imediatamente a seguir, uma senhora chama-me, descobrindo-me pelo autocolante laranja que me deram para pôr ao peito; nova espera, que pode ser aproveitada para levantar ou trocar dinheiro e comprar água ou comida num 7-Eleven;

– 17:30 – Transfer em van para a estação de comboios, onde é entregue o bilhete; nova espera, longa: leve um livro;

– 19:40 – Saída do comboio 26, Super Express, com destino final Banguecoque; há um outro comboio para Banguecoque às 18:30, mas menos confortável (e, consoante a quantidade de pessoas na fronteira, que é muito variável, pode não dar tempo para apanhar); é possível jantar a bordo, quer no vagão restaurante, quer no lugar (pratos em torno dos 150 bath);

– 5:50 – Chegada a Banguecoque (ou, como dizem os tailandeses, Krung Thep), à nova estação de Krung Thep Aphiwat, no norte da cidade (não se chega, portanto, à clássica estação de comboios da capital, Hua Lamphong); a partir daqui, o mais fácil, e mais caro, é apanhar um táxi ou um tuk tuk, e começar o dia antes que venha o calor. Deixe a mala no alojamento e vá para o caos estranhamente pacífico da cidade!

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